Na última semana, a conhecida Flaunt Magazine revelou a entrevista e ensaio exclusivos realizados com JADE durante sua passagem pela América do Norte. Confira a tradução na íntegra abaixo:

A primeira bailarina do filme The Red Shoes (1948), de Powell e Pressburger, não dança porque quer. Bem, no começo ela até quis — mas depois passa a dançar porque os sapatos a forçam. Assim que são amarrados ao seu corpo, transformam o ato da dança numa espécie de cativeiro: seus pés são movidos por uma vontade externa aterrorizante, arremessando-a por palcos, cidades e pela frágil fronteira entre devoção e auto aniquilação. Os sapatos não se importam com a sobrevivência da bailarina. O que importa para eles é que ela continue dançando.

No clímax delirante do filme, o teatro se desfaz. O palco se expande ao infinito. A plateia desaparece, restando apenas a dançarina e a sua compulsão. Como o mestre de balé Boris Lermontov comenta casualmente: “Ah, no fim, ela morre.” As sapatilhas pontiagudas, em toda a glória de seu vermelho tecnicolor, permanecem intactas. Esperam pacientemente. Sempre haverá outra bailarina.

A engrenagem do pop também se prende a uma garota ainda jovem. Ela a posiciona, aa limenta com aplausos como se fossem vitais. E quando chega a hora, se tiver muita sorte, ela aprenderá a desamarrar os próprios laços sem esquecer como dançar. Jade Thirlwall já sobreviveu a essa dança antes.

Agora se apresentando sob o monônimo JADE, a estrela pop de 33 anos ocupa um lugar raro e precário: o de uma artista pop renascida. Natural de South Shields, ela está no início de uma carreira solo e, ao mesmo tempo, entrando na segunda década como uma artista global. Seu álbum de estreia solo, lançado em Setembro do ano passado, THAT’S SHOWBIZ BABY!, funciona como uma autópsia rústica e reluzente, onde JADE disseca as condições sob as quais foi concebida.

JADE nasceu para o público geral como parte do organismo composto que foi o Little Mix: o girl group britânico dos anos 2010 formado por Thirlwall, Perrie Edwards, Leigh-Anne Pinnock e Jesy Nelson no The X Factor (UK), qual o reinado de uma década no topo do pop global foi um milagre. Girl groups são criados para acabar. Brilham intensamente e depois se fragmentam sob as pressões estruturais da visibilidade. O Little Mix contrariou a lógica industrial e o histórico do pop, abrindo caminho para os grupos femininos dos anos 2020.

O que resta do Little Mix segue próximo como sempre (a porta para uma reunião permanece aberta, pelo menos por parte de JADE: “É UM HIATO!”, ela exclamou ao avistar Perrie e Leigh-Anne durante um de seus shows em Londres em Agosto de 2025). Para uma ex-integrante de um grupo pop internacionalmente reconhecido, costuma ser considerado rude mencionar o passado na banda, como uma espécie de amnésia estratégica. Quando pergunto o que a leva a rejeitar a ambivalência típica da ascensão de sua carreira solo, ela responde com uma simplicidade desarmante: 

“Tenho um orgulho absurdo do que eu e as meninas conquistamos. É muito difícil um girl group dar certo e a gente durou uma década inteira. Isso não é pouca coisa na atual indústria musical, especialmente para um grupo pop feminino. Como não celebrar isso?”

Era inevitável, então, que seu álbum de estreia orbitasse sua própria história dentro da indústria da música. O disco gira em torno das delícias e dores do contrato emocional invisível que se firma quando uma mulher concorda em se expor profissionalmente. Com influências no maximalismo teatral de Madonna e pela dramaturgia emocional da Motown, THAT’S SHOWBIZ BABY! narra a dependência: o êxtase de ouvir seu nome ser gritado em uma casa de shows com as luzes ainda apagadas. O equilibrio psicológico por trás da busca pela validação externa e como separá-la de seu valor interno. A versão deluxe, THE ENCORE, amplia essa autópsia: “Church” serve como carta de amor aos fãs LGBTQIA+, “This Is What We Dance For” como confissão da ansiedade constante de quem vive na indústria.

“Acho que as estrelas do pop relutam em admitir o quão viciados somos nisso”,  diz. “Você se vicia nessa validação. Eu não gosto necessariamente de ser famosa, não gosto de não poder andar por aí sem ser reconhecida, mas estaria mentindo se dissesse que não amo ouvir os fãs gritarem ou cantarem minhas músicas para mim.”

Apesar de tudo, THAT’S SHOWBIZ BABY! ocupa um território instável e familiar para quem já amou algo que também lhe machucou. A dependência reaparece. O single principal, “Angel of My Dreams”, ataca essa dinâmica de forma incisiva, em letras que ela descreve como “tragicamente sinceras e desesperadas”. 

“A indústria consumiu minha vida”, ela conta, como quem fala de um ex-namorado. “Fiz muitos sacrifícios para fazer parte disso. Tive relacionamentos sabendo que nunca colocaria aquela pessoa acima da música. A música foi o amor da minha vida e, como todo relacionamento tóxico, tem pontos positivos e negativos.”

A oscilação entre autonomia e a submissão se reflete na estrutura sonora do álbum. O disco transita deliberadamente entre gêneros, priorizando a precisão emocional em vez da coesão. “Angel of My Dreams” começa em uma ilusão beatífica, deslumbrante e devocional, antes de virar a chave e lançar o ouvinte numa onda de estímulos sonoros. “Fantasy”, seu contraponto excessivo e libidinoso, mostra sua entrega aos prazeres do escapismo, celebrando a artificialidade do desejo em sua forma rapsódica e pop.

O amor inabalável de JADE pela indústria é palpável durante sua passagem pela América do Norte. Sua turnê, baseada em teatros clássicos, funciona como um programa de variedades onde JADE é, deliciosamente, todos os atos: cantora de cabaré, evangelista disco, comediante, figura messiânica entregando um “momento Evita” do camarote para uma plateia de garotas e gays. Sua formação teatral vem de uma infância mergulhada em Cabaret, West Side Story e A Chorus Line. Quando o conceito do álbum se consolidou, a teatralidade veio naturalmente:

“Eu sabia que faria algo teatral, então pensei: como criar um show que incorpore a essência do álbum e também esse caos? Eu sei que ainda não sou gigantesca”, diz ela, “então a ideia era fazer parecer o mais grandioso e bem pensado possível.”

Sua multiplicidade teatral nasce de uma compreensão aguçada da indústria:

 “Para ser uma boa estrela pop, você precisa ser um camaleão”, diz. “Você precisa se adaptar as mudanças e as atuaidades… uma boa popstar conhece seus fãs melhor do que ninguém. Não só a música, mas a coreografia, o palco, os figurinos, a personalidade. São muitas peças em movimento. Por isso o pop é um dos gêneros mais difíceis de sustentar por muito tempo.  Estar nessa indústria é brutal”, JADE continua. “Quando você entende isso e aprende a jogar a seu favor, você vira o jogo.”

O entendimento das engrenagens, das artificialidades e da sede por reinvenção moldou sua passagem pela América do Norte. 

“Parece que estou começando de novo”, diz, “mas agora eu sei quem eu sou… minha ideia de sucesso é outra.”

A recepção nos Estados Unidos, especialmente em espaços queer, foi imediata e fervorosa. Ela diz que não esperava essa onda de apoio. Conto que suas músicas ecoam em carros de aplicativo e pistas de West Hollywood, e que é difícil encontrá-la numa conversa sem que seja chamada de “mãe”. Ela ri, feliz enquanto se diverte:  “Os gays vieram com tudo.”

A mudança de público conversa diretamente com sua estética. Teatralidade rústica, melodrama autoconsciente e identidade performática fazem parte da lógica queer, e JADE é fluente nisso. Tão fluente que marcou o lançamento de “Fantasy” com uma coleção provocativa de produtos: butt plugs e outros personalizados com a marca da música. Podemos dizer que ela atravessou essa fase com confiança. Ao mesmo tempo, muitos fãs antigos do Little Mix retornaram à grade para testemunhar o “retorno da Messias”.

“Aqui nos Estados Unidos”, ela conta, “encontrei vários fãs dizendo: ‘Não acredito que você finalmente está aqui, estamos esperando desde 2011 por essa turnê’. Eu sei, eu concordo. Mas também é incrível ver tanta gente nos shows que nem conhecia o Little Mix e me amam como artista solo. Eu fico muito feliz com tudo isso, com os fãs do antigo e os do novo testamento”

É essa mistura de público que tornou possível sua primeira turnê solo como headliner, fãs apegados a memórias de uma década e jovens descobrindo-a sob luzes de uma disco-ball:

 “Eu e as meninas [do Little Mix] sempre sonhamos com uma turnê nossa”,  diz. “Sinto que faço isso pelo grupo e por mim. É um sonho realizado.”

Para o próximo ano, o plano é repetir a fórmula: escrever outro álbum, viajar mais, ampliar os espaços, expandir seu úniverso. À primeira vista, soa curioso ouvir alguém tão consciente das tribulações da indústria dizer com tanta segurança que quer continuar nela. Mas a relação agora é outra: se os sapatos vermelhos de Powell e Pressburger forçavam a bailarina a dançar até sua aniquilação, JADE parece estar no controle de seus próprios cadarços. Ela dança com autoridade sua própria coreografia. Os aplausos continuam viciantes, os fãs continuam famintos. Mas há um entendimento mútuo: enquanto ela estiver no controle, ela não vai parar.

“Acho que, para mim, o sonho é evoluir. Vou surpreender as pessoas de novo. Quero turnês maiores, viajar para mais lugares”, JADE olha para as próprias mãos, abrindo-as como quem mede o espaço. “Quero que tudo fique cada vez maior.”

Postado por: Brenda Barroso